TOCAR OU TECLAR?

Nos dias atuais muitas queixas  resumem-se numa composic¸a~o variada de tons sombrios e melanco´licos. Eles dissipam o colorido e da~o a sensac¸a~o de que todos os dias sa~o iguais, que nada de especial acontece. Invadem de desa^nimo todo o ser, como se a vida fosse uma mesmice, preenchida por repetic¸o~es de obrigac¸o~es dia´rias. A dificuldade para interagir e a vontade de isolamento, a tristeza e a fadiga passam a ser companhias dia´rias de uma vida sem sonhos.

E´ o quadro da prisa~o emocional emoldurado pela frieza das relac¸o~es que ocorrem apenas na via das redes sociais. E´ como a paisagem do quadro na parede se contrapondo à mesma paisagem na natureza. E´ lindo e e´ sem vida! Esconder atra´s dos aparelhos, alegando que sair e ir ao encontro real e´ perigoso, que as ruas esta~o violentas, que o tempo e´ frio ou e´ chuvoso ou muito quente e infinitamente entrar nessa roda de repetic¸o~es e´ fabricar os elos da prisa~o.

As redes sociais sa~o maravilhosas. No entanto na~o podem superar a maravilha maior do encontro pessoal, do olhar que enxerga ate´ os sentimentos, do contato essencialmente humano, do toque. A vida dia´ria comunicada apenas atrave´s da tecnologia  faz-nos prescindir de tudo isto. Quanto mais se insiste na falsa relação, menos o que e´ essencial fara´ parte de nossas vidas e a insatisfac¸a~o marcara´ presenc¸a. E´ triste constatar num encontro real que ja´ na~o se conhece o amigo.

A palavra e´ escolha. E´ sempre tempo de escolher compartilhar no real, reconquistar a liberdade, sair do mundo egoce^ntrico e iluso´rio de seguranc¸a e prazer e atravessar para o mundo real. Neste lugar onde as coisas acontecem, onde na~o da´ para ficar chateado e matar o amigo, no toque de uma tecla como no virtual. E´ preciso ter coragem, vontade e disposic¸a~o para dialogar e congregar. Sair da prisa~o da comunicac¸a~o apenas virtual liberta para vive^ncias mais profundas e para grandes transformac¸o~es pessoais; que dara´ o retorno a` vida, atrave´s do aprendizado que se da´ de modo especial na coletividade.

A libertac¸a~o comec¸a ao trazer para junto de si a pro´pria pessoa, num encontro verdadeiro com o sentimento e o conhecimento para enta~o ir ao encontro do outro. O calor humano e´ o combusti´vel da viagem maravilhosa das relac¸o~es humanas. O toque do abrac¸o, do aperto de ma~o, do sentir o pulsar do corac¸a~o enseja o retorno ao lugar da amizade real onde as dificuldades precisam ser enfrentadas e na~o no toque do dedo na tecla do aparelho.

O contato humano, a`s vezes, pode ser penoso pela dificuldade na comunicac¸a~o, mas e´ valioso e realc¸ado no brilho do contentamento que transparece em quem se propo~e a ir ao encontro do outro com leveza. Sobretudo por sentir-se agraciado divinamente ao reconhecer que fez diferenc¸a na vida de algue´m pela presenc¸a e calor humano.

O encontro e´ uma celebrac¸a~o, ele e´ especial, tem um lugar distinto. Nele a vida acontece com sonhos e realizac¸o~es. Atrave´s dele os dias na~o se apresentam com a sensac¸a~o de iguais, na~o ha´ a invasa~o do desa^nimo, a tristeza deixa de ser companhia dia´ria. A sensac¸a~o sera´ de colorido na vida, de dias repletos de novidade a cada momento. O fluxo de vida sera´ a grande alegria de perceber a capacidade e a forc¸a interior de se libertar e viver. Porque erros, tristezas, mal entendidos, dificuldade de comunicac¸a~o fazem parte de estar vivo e de estar se relacionando com seres humanos que acertam, mas erram, que na~o te^m apenas virtudes e que no mundo real ha´ infortu´nios, mas muita luz.

Odília Grilo (Psicóloga) 

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